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Eles nos diziam: “Os russos são uns porcos.” “Os russos não fazem prisioneiros.” “Os russos arrancam os olhos dos prisioneiros”, coisas assim. Ouvíamos esta propaganda do terror. Nada mais. Propaganda do terror. Peter Schilling cresceu bem protegido em uma paróquia. Aos anos apresentou-se, com entusiasmo, como voluntário na Wehrmacht, embora seus pais fossem antinazistas. Queria entrar na Marinha. Na ocasião, um de meus tios era comandante de navio. Mais tarde chegou a contra-almirante. Eu queria realmente ser oficial. Achava que aqueles gorros os faziam muito elegantes. Mas fui recusado porque naquela época a Marinha só aceitava pessoas com a visão perfeita e eu era um pouco míope. Seis meses mais tarde já teriam me aceitado, mas eu não queria mais. Max Gotthardt cresceu como órfão em Hamburgo. Foi uma educação dura, mas todos os golpes da infância não o prepararam para as coisas da guerra, como perder seu melhor amigo. Era um amigo meu de Düsseldorf e tínhamos que tomar uma espécie de colina. Tínhamos que subir lá. Foi atingido por fogo de metralhadora, atingido de cima a baixo. Eu vomitei. Mais tarde, tornou-se algo comum. Era duro. Wilhelm Keitel, Chefe do Alto Comando das Forças Armadas, havia emitido sua célebre Ordem dos Comissários, antes do início da campanha russa. Ordenava a execução dos comissários políticos do Exército Vermelho logo que fossem capturados. Os comissários eram propagandistas políticos. Impunham a disciplina nas tropas soviéticas, se necessário, pela força. Eram identificados pela estrela vermelha na manga. O comandante de nossa companhia leu-nos a ordem naquela noite dizendo que era seu dever fazê-lo. Acrescentou algo que já estava comigo, porque todos acreditávamos que mostrava uma grande… mostrava uma grande coragem. Disse: “Li pra vocês porque tinha que fazê-lo. “O que fazer com isto fica entre vocês e suas consciências.” E vimos aquilo como uma expressão franca e magnífica de oposição a uma ordem. E tínhamos muito respeito ao comandante de nossa companhia por dizer isto. Somente alguns poucos soldados podem ou querem lembrar. Mas a Ordem dos Comissários foi de fato levada a cabo. Cada manhã, os comissários eram separados do resto dos prisioneiros e executados. Tinham que sentar-se em velhas trincheiras. Creio que era uma unidade da polícia que os executava, não nosso pessoal. Durante muito tempo, foi dito que a Ordem dos Comissários só era executada em casos excepcionais. Mas recentemente, um jovem historiador tem se dedicado a comprovar os documentos de cumprimento ou não desta Ordem. Durante a campanha, soldados e oficiais alemães mostraram-se dispostos a obedecer a Ordem dos Comissários. Uma análise dos arquivos alemães mostra que em todos os exércitos, corpos de exército e mais de % das divisões alemãs, a Ordem dos Comissários foi cumprida. Isto é, há provas de que os comissários eram executados. E isto é certo para o º Exército, sob o comando do Marechal de Campo Walther von Reichenau. Seu pai havia sido um general prussiano e ele tornou-se oficial após o ensino médio. Conheceu Hitler em , antes que os nazistas chegassem ao poder, e logo converteu-se em um seguidor entusiasta. Ser um leal membro do Partido lhe converte em uma exceção entre os generais. No outono de , Reichenau é informado que Hitler tem a intenção de invadir a França. Discutem o plano em várias ocasiões. O historiador Timm Richter estudou a carreira de Reichenau durante vários anos. Fez alguns descobrimentos interessantes. Reichenau era um dos poucos oficiais de alta patente que se dava conta da importância de ter acesso direto a Hitler. Para muitos, isso rebaixava a dignidade ou não eram absolutamente políticos. Estavam ocupados com o rearmamento. Então, Reichenau e Hitler reuniam-se frequentemente. Reichenau tenta convencer Hitler, com argumentos militares, a abandonar o plano. Não consegue e Hitler está irritado. Após Hitler ter conversado com os generais, deixando claro que estava decidido a atacar, Reichenau reuniu-se com um líder da resistência civil, Carl Goerdeler, em Leipzig. Concordaram que um ataque da Alemanha ao Oeste, em seria um desastre. O única maneira de evitá-lo seria tornar os planos de conhecimento público. Após a reunião, Goerdeler vaza a informação de Reichenau para o Governo Britânico. Reichenau está disposto a cometer traição para contrariar a decisão de Hitler. Mas, apenas meses depois, Reichenau mostra uma face muito diferente na campanha russa. Bila Tserkva, Ucrânia, meados de agosto de . O º Exército de Reichenau entra na cidade e a toma sem resistência. As unidades especiais das SS começam a assassinar civis judeus. Anunciaram pelo rádio que todos os judeus deviam ter uma faixa no braço. Sabe, com a estrela de seis pontas. Todos eles deveriam ter sua própria marca. E os obrigaram a colocar o símbolo. E depois disto… umas duas, três ou talvez quatro semanas mais tarde… eu tinha anos, depois disso… reuniram todos e os levaram para a execução. Quer dizer, exterminaram os judeus. Minha mãe e eu vimos a longa fila de pessoas… a enorme coluna de judeus. Mais de judeus foram assassinados em Bila Tserkva. O Comando da Wehrmacht deu apoio logístico para o assassinato em massa. Eu via e me perguntava por que as pessoas davam cambalhotas. Davam uma cambalhota e logo desapareciam. Uma fila de gente dando cambalhota ao mesmo tempo. Que estava acontecendo? Aproximei-me e vi que haviam sido baleados e tinham caído na fossa. O que fazer com as crianças que sobraram? Por enquanto estão trancadas numa sala de uma escola. Um motorista do exército leva alguns oficiais para investigar. Crianças pequenas, de dois ou três anos, dez ou doze, vestidos com trapos. A maioria das crianças da Rússia tinham este aspecto, devo acrescentar. Poderiam estar ali há uns tres ou quatro dias, ou dois, ou cinco. Não gritavam nem choravam, nada. Estavam muito quietos na sala em que estivemos. O Tenente Coronel Helmuth Groscurth, um oficial da divisão que tinha seu quartel general na cidade, escreveu este comunicado. “As habitações estavam lotadas com umas crianças. Havia uma quantidade indescritível de porcaria. Trapos, fraldas e detritos por todas as partes.



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